ÁREA DO ASSOCIADO

30/10/2019

Artigo- A liberação do FGTS e o efeito multiplicador

O saque do FGTS deve injetar na economia em torno de 42 bilhões de reais



Paulo André de Oliveira*

O Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) é uma poupança forçada feita pelas empresas em nome dos trabalhadores. Um dos objetivos é capitalizar uma reserva financeira em caso de dispensa do trabalhador sem justa causa e ainda para mais outras quatorze situações. O dinheiro depositado nestas contas não fica parado. Os recursos são aplicados em projetos públicos, como o financiamento de habitação e obras de infraestrutura e saneamento básico. Em 2008, o governo criou o Fundo de Investimento do FGTS (o FI-FGTS), que recebe parte dos recursos das contas dos trabalhadores e os aloca em empreendimentos de infraestrutura urbana, como portos, aeroportos, rodovias, hidrovias, ferrovias e energia. Paulo André de Oliveira é economista e professor da Faculdade de Tecnologia de Botucatu (Fatec).

No intuito de estimular a economia, o governo possibilitou o saque de R$500 por conta de FGTS. O saque do FGTS deve injetar na economia em torno de 42 bilhões de reais. Como o valor é considerado baixo pelas famílias, existe uma intenção maior de uso em consumo do que em poupança. Desta forma,  geraria estímulo à produção e, como consequência, haveria o aumento de empregos e salários. Os efeitos são de curto prazo, e dependem da intenção das famílias de consumir sua renda disponível (renda das famílias após pagamento dos impostos). A decisão do que fazer com o dinheiro tem diferentes efeitos sobre a economia. Existe a possibilidade de ser destinada parte ao consumo, parte à poupança ou ainda pagamento de dívidas. 

Quando ocorre um aumento externo na renda disponível, externo no sentido de um valor que não fazia parte do modelo econômico, existe um efeito multiplicador da renda. O mecanismo de origem a um efeito multiplicador é um montante inicial de renda adicional que pode levar a aumento do consumo, aumento da renda e, portanto, aumentar ainda mais o consumo, resultando em um aumento generalizado da renda nacional maior que o montante despendido inicialmente. Por exemplo: Se as famílias do país tiverem uma propensão marginal (marginal no sentido de uso da renda adicional) a consumir 80% da renda indica que, dado um aumento na renda nacional disponível de R$ 100 milhões, o consumo aumentará em 80% de R$ 100 milhões, isto é, R$ 80 milhões adicionais. Contudo, esta  renda de 80 milhões adicionais quando gasta, será renda para outras pessoas, ou seja, 80% de 80 milhões, logo teremos 64 milhões adicionais e assim sucessivamente. Em nosso exemplo, os 100 milhões iniciais se multiplicaram, circulando pela economia gerando 500 milhões (cinco vezes).

É fácil perceber que quanto maior a propensão ao consumo, maior o efeito multiplicador. Se a propensão fosse de 50%, o efeito seria de duas vezes (o cálculo é feito por progressão geométrica). No Brasil a propensão marginal a consumir está entre 60 a 70%, variando por faixa de renda. Quanto menor a renda maior a propensão marginal ao consumo, indo de 93% na menor renda até 40% na maior faixa da renda. 

Na situação do FGTS se espera uma propensão em torno de 60%, ou seja,  duas vezes e meia 42 bilhões, algo em torno de 105 bilhões de reais adicionais (totalizando 147 bilhões de reais). Este efeito multiplicador também sofre efeito do comércio exterior, pois se todo o valor do FGTS fosse gasto com produtos nacionais, o efeito multiplicador seria ainda maior. Quando se compra produtos importados se gera renda no exterior, fracionando o efeito multiplicador dentro do país.

O valor destinado à poupança tem outros efeitos, também positivos, mas não imediatos como o consumo. O pagamento de dívidas liquida valores de antecipação de consumo, ou seja, o efeito multiplicador é anulado, pois o consumo ocorreu em períodos anteriores. O efeito positivo de se liquidar dívidas é a possibilidade  de adquirir novos créditos tendo outra sistemática de efeitos. Portanto, a liberação de valores do FGTS tem efeitos superiores ao valor estimado devendo ocorrer lentamente os efeitos multiplicadores, pois existe um espaço de tempo entre cada uma das etapas.

Paulo André de Oliveira é economista e professor da Faculdade de Tecnologia de Botucatu (Fatec). Artigo publicado originalmente na edição 46 da revista Destaque Botucatu (novembro de 2019.


voltar